Uma coisa que eu tenho pensado bastante é na relação que existe entre a beleza e a tristeza. Outro dia estava pensando no quanto a melodia de Fake Plastic Trees é triste. Sabe, um cachorrinho com a perna quebrada andando na rua é uma coisa triste. A miséria na África e a fome são coisas tristes. A guerra é uma coisa triste. Animais matando outros da mesma espécie, uma criança chorando porque seu sorvete caiu no chão... essas são coisas tristes. Agora, o que diabos nos leva a escutar uma música e achá-la triste? Tirei umas horas pra analisar Fake Plastic Trees, e me lembrei da primeira vez que a ouvi. Tinha 15 anos e foi num comercial sobre a Síndrome de Down. É uma música com começo calmo, apenas um violão base e o Thom York cantando uma melodia bem feita, alternando altos e baixos. Entra uma bateria leve, encorpando a música. E quando você pensa que tudo já voltou a ficar calmo, tudo explode em guitarras distorcidas, uma bateria pesada e a voz quase desesperada de York, provando vir do fundo se sua alma. E de repente, não mais que de repente, do mesmo jeito que surgiu, todo o peso desaparece, fechando aqueles minutos com uma tensão única, como se fosse um medo de que tudo mude novamente. É claro que é simplesmente impossível traduzir em palavras todos os sentimentos que uma música dessas traz. E vocês podem até rir, mas eu sou a primeira a admitir que é impossível escutar uma música dessas no volume máximo e não terminar com os olhos no mínimo um pouco molhados. Mas de onde nós tiramos tanta tristeza de uma musica tão linda? Pois é exatamente isso. Nós tiramos do belo o triste. Quando nos deparamos com a beleza de uma música, ou mesmo de um nascer do sol que seja, é como se apenas nós existíssemos naquele momento. Como se o resto do mundo desaparecesse, e apenas você soubesse apreciar toda a beleza que se revela. Você se sente completamente sozinho, e será que esse não é o mais triste dos sentimentos? A solidão? Na realidade, toda a tristeza que vemos no que é belo é apenas o medo da solidão. Então será que não existe nada mais belo que a solidão? Ou talvez isso tudo seja apenas um devaneio maluco da cabeça de uma mulher que não consegue parar de ouvir Radiohead, Placebo, Muse, Beirut, Los Hermanos... E que, por isso mesmo, se sente extremamente sozinha... Vai saber...!
As pessoas são parecidas e diferentes. A maior parte gosta de si mais que dos outros. A maior parte quer ser escutada. E cada uma delas é um universo de coisa próprias. Diferentes de todas as outras. E é muito comum, muito mesmo, que se ponham a me contar detalhes sobre suas vidas, sentimentos, histórias, pouco tempo depois de me conhecer. Isto se passa com jovens e velhos; com motoristas e faxineiras; com homens e mulheres; com padres e putas; com ingleses e mexicanos; com gays e racistas; enfim. Sem critério. Mesmo eu sendo assustadoramente sincera. Mesmo eu tendo fama de brava e grossa. Mesmo não sendo condescendente. Elas me contam suas coisas. E eu dou um monte de palpites e traço um monte de alternativas. Com esta mania de achar solução, de criar mapas de rotas de escape. E nunca comento com ninguém seus segredos, embora seja faladeira a beça. Mesmo quando detesto aquela pessoa. Eu gosto de gente. Assim mesmo, no sentido genérico da palavra. Tem quem goste de máquinas, de construções, de carros, de florestas, de mar. Eu gosto de gente. De entender gente. Por isso, acho, falam comigo assim. Uma vez, um inglês me disse: “Ana, se você se sentar ao lado de uma cadeira, começará a conversar. E, pior, a cadeira vai responder!”. E eu respondi: “Não, Paul, isto não poderia acontecer com uma cadeira. Mas poderia acontecer com um mudo!” Eu gosto de gente... Li em algum lugar certa vez: Eu gosto de gente grande, gente larga, gente espaçosa - por dentro -gente com varanda, cobertura, pátio e vista, gente ampla, gente latifúndia - produtiva ou não -, gente crescida e crescente, gente expandida, expansiva, gente onde cabe gente dentro, gente em que a gente pode se hospedar, pode morar, deitar e rolar. GENTE AONDE HÁ VAGAS !"
E completando: Gosto de gente que se joga, vive e se permite. Que ao ir embora, só leve o que temos de bom e nos ajude a findar o ruim. Gente que chora e ri. Que ama e odeia, talvez na mesma proporção. Que não acredite no destino, mas que o faça acontecer!
O HOMEM- ABRE ALAS Sabe o cara que quer porque quer te convencer a expandir seus horizontes? É o Abre alas. Ele faz você se sentir uma garota careta, provinciana para conseguir o que realmente quer. Ele quer ampliar seus domínios na seara do sexo. Se no começo ele te fez mulher com carinho e ternura, hoje ele te chama de lagartixa, mas isso não é o suficiente pro Abre alas. Ele quer sempre mais e só vai ficar satisfeito no dia em que você abrir geral. Ele quer tudo. Até aí tudo bem, se você for o tipo da Garota-quero ver a mangueira entrar, mas uma vez que ele consiga o que quer, o céu é o limite, aí o buraco fica bem mais embaixo e o Homem-abre alas pode virar um Homem-he man, bombado, de cabelinho louro sambando no Bloco das piranhas.
O HOMEM-CARMEM MIRANDA
Simpático e animado, o Homem-Carmem Miranda, também conhecido por Carminha é bastante óbvio para deixar dúvidas. Não, ele não deixa nenhuma e anda pra todo lado com cortes de tecidos cintilantes, muita pluma, muito paetê e retalhos de chita coloridas. O Carminha é uma ótima companhia para Bailes em cidades pequenas, onde tudo que você quer é alguém pra rodar o salão enquanto procura um “Homem-pierrô pra te beijar e te abraçar, meu amor”. Vai uma banana aí? Ele tem. Abacaxi? Ele tem. Vatapá? Oi Caruru? Ô se tem.
O HOMEM-TIROLÊS
Apegado à mãe, o Homem-tirolês acorda no sábado de carnaval ansioso pra enfiar aquela roupinha que a mãe de 70 anos passou janeiro inteiro costurando. Você vai morrer de vergonha de sair com ele. É uma boa hora pra dar aquele tempo na relação. Deixa seu Homem-tirolês solto no carnaval que nada há de acontecer com ele e você aproveita pra quebrar tudo no Monobloco. O Homem-tirolês, além de aparecer no Monobloco de jardineira curta verde com brocados, chapeuzinho verde de Peter Pan, sapatos pretos e meias brancas até a canela, em vez de entoar o enredo oficial, chega animadíssimo gritando Iorulêi-hiiiii. Não dá pra encarar, deixa ele pagar o seu mico particular bem longe de você.
O HOMEM-TRIO ELÉTRICO O bofe não pára um segundo. Depois de se acabar no sabadão, ele tira um cochilo de meia hora e acorda pra pegar a primeira cerveja do dia na geladeira do apê que alugou em Salvador. Lá embaixo os trios não param de passar e a galera pulando embolada. Enquanto isso, você que está estragada deitada num colchonete, com um ventilador apontado pra sua pessoa, leva a primeira cutucada do dia. Nem pense em tentar convencê-lo de que está cansada e precisa repor as forças. O Homem-Trio elétrico é assim ligado e gosta de variar nas modalidades. Nada de uma ou duas, tem que ser no mínimo três. Só não vai quem já morreu. Olha o Olodum aí gente!
O HOMEM-CAMAROTE
Muito fino, o Homem-Camarote. Ele te leva pra Sapucaí, ele tem credencial, para o carro lá dentro, tem camarote com mordomia, ta pensando o quê? É amigo do presidente da Liga das Escolas de Samba e arruma uma bocada pra sair com você à tiracolo com camiseta de “Apoio” em todas as escolas do primeiro grupo. Você se esbalda, volta pro aconchego do seu camarote, onde é recebida com um bom ar-condicionado, repõe as forças comendo frutas tropicais, blanquete de peru, recebe uma massagem do Homem-camarote e espera pela próxima escola passar. O Camarote é mordomia total, barba, cabelo e bigode. E o melhor, depois tem desfile das campeãs, mas cuidado com as rainhas de bateria.
O HOMEM-VOU PRA SERRA
Tipo bastante comum, principalmente se não conseguir se livrar da namorada antes do carnaval, ele te convence a passar o carnaval bem longe da folia, porque acha um verdadeiro saco toda aquela agitação. Na verdade temos dois tipos de Homem-vou pra serra. Os verdadeiros e os piratas. Os verdadeiros são geralmente cinéfilos, intelectuais, pensadores, ex-hippies e afins. Esses são os originais de fábrica e querem mesmo se ver livres da festa da carne. Além de não participar da folia, ele te proíbe de ligar a televisão porque só se vê a Globeleza e a Sapucaí. Até aí tudo bem se ele te compensasse pelo marasmo de um carnaval em uma choupana no meio do mato, mas nem te comer ele come direito. É uma na chegada e outra na quarta-feira de cinzas, de ladinho, na hora que acorda, meio sonado, e olhe lá. Já o Homem-vou pra serra de araque é aquele que se deu por vencido, não conseguiu se livrar do namoro e revoltado resolve aliviar sua dor se mantendo afastado das tentações. Pelo menos o pirata te come direito, mas não se engane, enquanto você dorme, ele assiste todos os bailes da madrugada e chora de nostalgia quando vê o velho e bom He-man curtindo a vida adoidado.